(TXT sem título) https://silviolobo.com.br/dominiopublico/txt/parte_690193e58c6b41.75067429_66.txt do abstraído está longe do que vós lhe dizeis, daquilo de que se trata; o espírito do distraído é instável, dissipado, evaporado, incapaz de aplicar-se ao que quer que seja; ele deixa vagar seus pensamentos, segundo a expressão de Bossuet; ele está à mercê de todas as impressões. A causa das abstrações é antes interior; a da distração é exterior”. Alv. Pas. escreve magistralmente: “Encerra-se nestas duas palavras a ideia comum de falta de atenção; mas com esta diferença: que são as ideias próprias, o pensamento do indivíduo, que o fazem abstraído, ocupando-se ele tão fortemente com estas ideias interiores que só atende às coisas que elas representam; e é um novo objeto exterior que faz o homem distraído, e atrai a sua atenção, que a desvia do objeto a que ele a tinha aplicado. Ficamos abstraídos quando não pensamos em nenhum objeto presente; quando, recolhidos conosco, nos entretemos com o nosso próprio cogitar; quando estamos numa parte e o pensamento noutra. “A força da oração o abstraiu deste desterro”. (Cardoso) Ficamos distraídos quando, estando a contemplar um objeto, mudamos a atenção para outro diverso; quando, estando a ouvir um discurso que se nos dirige, escutamos outro diferente; quando, dados a nossas ocupações, atendemos a festins etc. Uma pessoa abstraída tem o espírito muitas vezes a grandes distâncias: ora está em Lisboa em frente da estátua equestre; ouvindo tal orador no palácio das Cortes; admirando as belezas da Ajuda, ou as antiguidades de S. Vicente de Fora; ora está em Roma no meio da praça de S. Pedro. É difícil que não fiquemos distraídos quando, escutando um discurso enfadonho, ouvimos do lado uma coisa interessante. As abstrações são mais próprias dos homens dados a meditações, a estudos profundos. “Devem guardar o coração desempenhado, abstraído, silencioso e solitário para o comércio divino”. (Bern.) As distrações pertencem mais aos espíritos levianos e às crianças que se distraem com lindos nadas. “Os abstraídos meditam muito e falam pouco; e os distraídos meditam pouco, e falam muito, e perdem o fruto das conversações”. 70 ABSTER-SE, privar-se; abstinência, privação. – Escreve Roq.: Abster-se exprime a ação sem referi-la ao sentimento que pode acompanhá-la; privar-se supõe apego à coisa, e pena de não poder gozar dela. Fácil nos é abster-nos do que não conhecemos nem amamos, nem desejamos, ou que nos é indiferente; com dificuldade, porém, nos privamos das coisas que conhecemos, que nos agradam, de que gozamos ou queremos gozar. Podendo o bêbado beber, caso raro é que se prive de vinho; porém o homem de razão abstém-se dele quando sabe que lhe é nocivo. – Vemos que abstinência supõe que podemos gozar de uma coisa, mas que por certas razões dela nos abstemos, e assim se entende ser voluntária. A privação é de ordinário forçada, pois temos desgosto e ainda pena de nos vermos privados daquilo que muito desejamos lograr. Para o que prefere sua saúde aos prazeres, a abstinência não é na realidade privação; mas para o