(TXT sem título)
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que formalmente se extinga; porque, se sem melhoria se acaba a saudade, é certo que o amor e o desejo se acabaram primeiro. Não é assim com a pena; porque, quanto é maior a pena, é maior saudade, e nunca se passa ao maior mal, antes rompe pelos males; conforme sucede aos rios impetuosos conservarem o sabor de suas águas muito espaço depois de misturar-se com as ondas do mar mais opulento. Pelo que dizemos que ela é um suave fumo do fogo do amor, e que do próprio modo que a lenha odorífera lança um vapor leve, alvo e cheiroso, assim a saudade modesta e regulada dá indícios de um amor fino, casto e puro. Não necessita de larga ausência; qualquer desvio basta para que se conheça” (Epan., p. 236). Nem o desiderium latino; nem o souvenir ou o regret francês podem comparar-se com a mimosa saudade portuguesa; há, contudo, uma expressão francesa que de algum modo arremeda este nosso vocábulo, que é le souvenir du cœur. Camões sentiu bem o que era a saudade quando disse:

Agora a saudade do passado, Tormento puro, doce e magoado, Que converter fazia estes furores Em magoadas lágrimas de amores.
(Canc. XI)

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PERCEPÇÃO, sensação, sentimento. – Segundo Bourg. e Berg. “estas três palavras

exprimem efeitos diferentes produzidos na alma pela impressão dos objetos. Antes de tudo, é preciso estabelecer uma profunda distinção entre a sensação e o sentimento de um lado, e a percepção do outro. As duas primeiras referem-se às faculdades da sensibilidade e da afetividade; a terceira, às faculdades intelectuais. A percepção é o ato pelo qual o espírito tem uma vista dos objetos exteriores (ou também das próprias sensações); pelo qual os recebe em si e os distingue; o seu efeito é o de instruir, e segundo essa vista for mais ou menos clara, ou mais ou menos confusa, fica-se tendo mais ou menos clara inteligência do objeto. Dizer que se tem a percepção de uma verdade, é dizer que a ideia dessa verdade entrou no espírito, e que este tem consciência dela. A sensação e o sentimento são modificações do espírito que sente uma mudança qualquer, seja boa ou seja má. Estes vocábulos diferem um do outro em várias circunstâncias. A sensação é propriamente a modificação, agradável ou desagradável, que os objetos nos causam ao ferir os sentidos, quando a impressão é levada ao cérebro pelos nervos; poder-
-se-ia dizer que é a percepção da impressão acompanhada de um efeito bom ou mau. A sensação tem, pois, sempre relação com uma ação exterior, posto que resulte de uma impressão dos sentidos; e, além disso, como cada sensação corresponde a uma impressão, a palavra sensação implica um efeito essencialmente momentâneo e passageiro: uma ameaça inesperada causa uma sensação de medo; uma pancada forte causa uma sensação de dor; o que é agradável ao gosto, ao olfato, produz sensações de prazer. O sentimento é, ao contrário, uma modificação duradoira, que provém indiretamente da impressão e da sensação, ou que tem a sua origem num trabalho interior do espírito afetado agradável ou desa