(TXT sem título) https://silviolobo.com.br/dominiopublico/txt/parte_690193e58c6b41.75067429_530.txt sapatos, de luvas; par de vasos, etc. – Casal também se emprega tanto em referência a pessoas, como a certos animais: um casal que vive como Deus com os anjos; alguns casais de chins; casal de coelhos; casal de patos. E até se usa dizer – casal de xícaras. 855 PENA, saudade. – É Roq. quem se vai sair da grande responsabilidade de haver juntado como sinônimos estes dois vocábulos. “A palavra saudade” – diz ele – “que os antigos escreviam soidade, ou suydade, de soledade, é tão singular, e exprime uma ideia tão complexa e um sentimento tão mimoso que não tem, rigorosamente falando, sinonímia com nenhuma outra; há, contudo, entre ela e pena um ponto de contato que mui discretamente notou um ilustre escritor português”. Pena é a impressão que faz o desgosto em nosso ânimo; é uma mortificação que nos penaliza, mas vagamente, e sem os afetos complicados que a saudade produz. “A palavra saudade” – diz Garrett numa erudita nota ao seu Camões – “é, porventura, o mais doce, expressivo e delicado termo da nossa língua. A ideia, ou sentimento por ele representado, certo que em todos os países o sentem; mas que haja vocábulo especial para o designar, não o sei de outra nenhuma linguagem senão da portuguesa”. Mal sabia o ilustre poeta contemporâneo, quando isto escrevia, que quatro séculos antes dele havia exprimido a mesma ideia um sábio rei português. Diz o senhor d. Duarte, no Leal Conselheiro (p. 151): “E porém me parece este nome de suydade tão próprio, que o latim, nem outra linguagem que eu saiba, não é pera tal sentido semelhante”. E entrando a defini-la diz: “Suydade propriamente é sentido (sentimento) que o coração filha por se achar partido (apartado, separado) da presença de alguma pessoa ou pessoas que muito por afeiçom ama, ou o espera cedo de ser; e isso medes (assim mesmo) dos tempos e lugares em que por deleitação muito folgou; digo affeiçom e deleitaçom, porque som sentimentos que ao coraçom pertencem, donde verdadeiramente nace a suydade, mais que da razão nem do sizo”. D. Francisco Manoel exprimiu a mesma ideia dizendo: “A quem somente nós sabemos o nome, chamando-lhe saudade.” E não se contentou com isto, senão que deu a razão porque isto assim é, descrevendo a saudade nesta elegante e suave linguagem: “Floresce entre os portugueses a saudade por duas causas, mais certas em nós que em outra gente do mundo; porque d’ambas essas causas têm seu princípio. Amor e ausência são os pais da saudade; e como o nosso natural é entre as mais nações conhecido por amoroso, e nos- sas dilatadas viagens ocasionam as maiores ausências, daí vem que onde se acha muito amor e ausência larga, as saudades sejam mais certas; e esta foi sem falta a razão por que entre nós habitassem como em seu natural centro... É a saudade uma mimosa paixão da alma, e por isso tão subtil que equivocamente se experimenta, deixando-nos indistinta a dor, da satisfação. É um mal de que se gosta, e um bem que se padece; quando fenece, troca-se a outro maior contentamento, mas não