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pode parecer prodigioso, maravilhoso ou milagroso a um, sem merecer essas qualificações a outros. O vulgo ignorante tem como prodígio tudo o que não é frequente, tudo o que é raro, e que não sucede todos os dias; dá o nome de milagre a qualquer efeito extraordinário cuja causa lhe é desconhecida; e maravilha-se à vista de uma obra de arte, que ele não sabe apreciar, mas que lhe parece superior em perfeição a tudo o que tem visto no mesmo gênero. Houve tempo em que o abusivo emprego destes vocábulos parece que se estendeu até os homens doutos e instruídos, e principalmente aos poetas, posto que em diferente sentido. Tudo então eram prodígios e formosura, de beleza, de graça; milagres de valor, de generosidade, de liberalidade; maravilhas da natureza, da indústria, do saber, etc. O progresso das ciências, e das artes, tem corrigido o primeiro abuso em parte; e o conhecimento da verdadeira eloquência, e das regras de bem escrever, tem emendado o segundo. Hoje não duvidaremos qualificar de prodigiosos alguns fenômenos raros, sem contudo supormos que eles sejam prognósticos de sucessos faustos ou infaustos. Reconhecemos a possibilidade e existência de milagres; mas, excetuando aqueles, que são atestados nas escrituras canônicas, em todos os mais requeremos provas superiores a toda exceção, e que sejam capazes de fundamentar a nossa convicção em tal matéria. Finalmente, não duvidamos chamar maravilhas da natureza, ou da arte, aquelas que, pela sua raridade, perfeição, formosura, ou singular artifício, merecem esse nome, e justamente excitam a nossa admiração. Na linguagem dos escri-

tores sisudos também se devem empregar os mesmos vocábulos com igual temperança, postas de lado as ridículas e afetadas hipérboles do gongorismo, com que no século XVII se aviltaram estas e outras expressões, aliás destinadas para significarem objetos dignos da nossa admiração”.

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MÍSTICO, espiritual; misticismo, misticidade; espiritualismo, espiritualidade. – Místico é tudo aquilo que se refere à consciência religiosa; ao que há de mais profundo na vida interior; ao que pertence mais à natureza contemplativa da alma humana que propriamente ao senso moral; ao que tem um certo caráter de misterioso porque envolve razão oculta, incompreensível. Vida mística; sentido místico, etc. – Espiritual diz propriamente “da natureza do espírito; inerente à alma; que se refere à função da inteligência; que nada tem de submisso ou de adstrito à matéria.” – De misticismo e misticidade diz Laf. que são “disposições interiores dos místicos; isto é, dos filósofos ou dos devotos, cujo espírito imerge nas profundezas da contemplação divina ou dos mistérios da imortalidade. O misticismo é uma doutrina; a misticidade é uma qualidade. Um refere-se às opiniões; outro ao caráter. Os filósofos que professam o misticismo têm como adversários os racionalistas; a misticidade torna sonhador, contemplativo, e pouco próprio para os negócios. O misticismo sugere ideia de atividade especulativa: é uma