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João I, como tal se assinava, e assim o denomina o epitáfio gravado sobre sua sepultura em S. Domingos de Benfica. Este parece ser o último que teve o título de

privado, o qual não tornou mais a ser usado nos reinados seguintes. “Até o reinado de d. João I”, diz o sábio acadêmico Trigoso (Mems. da Ac. das Ciências, XI, 174), “chamava-se privado aquele conselheiro que tinha maior trato e conversação secreta com o soberano nos negócios do Estado; e os que depois se chamaram validos eram os que com ele tinham merecimento, ou graça em virtude da qual conseguiam o que lhe pediam; porque valer propriamente significa “ser útil, servir, e prestar”. Nota o mesmo sábio que depois que a dignidade ou ofício de privado deixou de existir, começou este nome a passar como sinônimo de valido; e cita Sá de Miranda, que diz:
Quem graça ante El-Rei alcança, E hi fala o que não deve,
Mal grande de má privança. Peçonha na fonte lança, De que toda a terra beve.
O mesmo poeta:
Que Deus é fogo que abraza Sei-o de um privado seu.
E noutro lugar:
Não falemos naquela infirmidade De seus validos... etc.
  Neste mesmo sentido disse Camões, falando de d. Sancho II:.
De governar o reino, que outro pede, Por causa dos privados foi privado.
(Lus., III, 91).
E fazendo alusão a el-rei d. Sebastião: Culpa dos reis, que às vezes a privados
Dão mais que a mil, que esforço e saber
tenham.
(Lus., VIII, 41).
  Ainda mesmo depois que a palavra privado perdeu a significação histórica de que

acabamos de falar, e apesar de que alguns escritores usaram promiscuamente dos vocábulos privado e valido, entendemos que entre eles há não pequena diferença, como indicamos, e que não menos difere dos dois o vocábulo favorito. Os bons reis podem ter privados que não se desonram a si mesmos com baixezas como os favoritos, nem os dominam para proveito próprio como os validos; mas que os aconselham privadamente para bem, e os servem como leais e desinteressados súbditos. O conde de Castelo Melhor foi privado, e talvez valido, mas não favorito de d. Afonso VI; os favoritos deste eram os Contys. O príncipe da Paz foi valido de Carlos IV, rei de Espanha, mas não se pode dizer que foi seu favorito. O padre Vieira foi grande privado de el-rei d. João IV, mas não foi seu valido, e ainda menos seu favorito. Ouçamos a este grande homem falar dos validos, e fazer a diferença entre eles e os privados: “Se convém que os reis tenham valido, ou não, é problema que ainda não está decidido entre os políticos; mas dois validos, ninguém há que tal dissesse, nem imaginasse” (III, 80). “Os validos hão de estimar mais a graça do príncipe que todas as mercês que lhes pode este fazer, porque esta é a maior. Hão de encher a graça que têm dos príncipes com serviços, e não se hão de encher com ela de mercês. O maior crédito do valido é que a sua privança seja privação. Por isso os validos, com mais nobre e heroica etimologia, se chamam privados” (II, 98). Quer dizer que os validos, para tirarem o odioso deste nome, se dão a s