(TXT sem título) https://silviolobo.com.br/dominiopublico/txt/parte_690193e58c6b41.75067429_460.txt dade como a extrema cegueira no órgão visual; por isso se diz: olhos caliginosos, por escurecidos, cegos, física ou moralmente; e não se poderia dizer escuros62, nem sombrios, nem tenebrosos. – No sentido figurado, escuro dizemos comumente do que se não entende ou ouve bem, do que é triste: pensamento, texto escuro; voz, palavras escuras. – Obscuro dizemos particularmente do que não tem lustre, nem nobreza: nascimento, lugar obscuro; nome obscuro. Sombrio não se diz senão do ar e feições do rosto do homem triste, e superfície lisa serenamente. Pisou numa casca de banana, escorregou e caiu; pisou em falso, resvalou e tombou no buraco; o veículo, 62 ~ Aliás, escuros ainda se diz. É muito usual – escureceu a vista. do caráter e dos pensamentos das pessoas que vivem fora de alegria. – Tenebroso dizemos com propriedade das ações, dos projetos, das empresas odiosas e secretas, envoltas em véus impenetráveis. – Caliginoso dizemos acertadamente da grande cegueira de entendimento, da grande obscuridade do que escapa à nossa perspicácia e previsão. Em bons autores pode ler-se: “Olhos caliginosos dos sectários, da malevolência; o caliginoso polo do futuro”. 722 ESCUTAR, ouvir, atender. – Não se pode confundir o verbo ouvir com os dois outros; pois ouvir designa uma função inconsciente do sentido da audição: é sentir as impressões causadas pelo som no órgão desse sentido. Entre escutar e atender há diferença muito mais subtil. Estes dois verbos, como diz Alv. Pas., “são sinônimos quando exprimem a ideia de prestar atenção ao que se diz, com a diferença seguinte: Escuta-se para se ouvir bem o que se diz; atende-se para compreender bem o que se ouve. O primeiro representa uma função do ouvido; o segundo, uma operação do espírito. O que ouve bem o pregador atende para não perder nada do sermão. O que está longe escuta para o poder ouvir. Para escutar evita-se o barulho; para atender evita-se a distração”. 723 ESFAIMADO, esfomeado, faminto, femélico, famulento. – A palavra latina fames, e a portuguesa dela derivada, fome, são os radicais de todos estes adjetivos, que indicam o que tem fome. Alguma diferença, porém, é preciso notar entre eles. – Famélico é palavra alatinada, famelicus, que se traduz em faminto ou esfomeado, pela oposição que tem com saturatus, “farto”. Se houvéramos de traduzir aquele dito de Plauto: Dum ridebunt saturati, mordebunt famelici (Ps. prol. 14) – diríamos muito bem: “Enquanto rirem os fartos, morderão os famintos”. – Faminto indica o que tem fome e deseja comer; corresponde, como vemos, ao famelicus latino, e ao hambriento espanhol, mas não tem tanta força como o esfomeado ou esfaimado português, segundo parece dar a entender Vieira quando diz: “Por isso há tantos famintos, ou esfaimados da graça” (V. 423). O prefixo es aumenta a força, a intensidade do radical; pelo que estes dois adjetivos (esfaimado e esfomeado) exprimem uma fome violenta, devoradora nos indivíduos a quem se aplicam. – Esfaimado é menos vulgar que esfome