(TXT sem título) https://silviolobo.com.br/dominiopublico/txt/parte_690193e58c6b41.75067429_355.txt nso, a diferença parece muito pequena. O senso, no entanto, tem mais relação com o juízo; ele diz respeito à pessoa, é uma faculdade: o bom senso, ao contrário, parece-se mais com a razão; e, quanto à pessoa, alguma coisa como que recebida de fora, um como fundo de princípios, ou de crenças comuns, às quais a pessoa não faz mais que se conformar. Dir-se-á melhor, falando de alguém que se determine, e em uma acepção particular, que essa pessoa tem um grande senso, um reto senso, ou um senso limitado; que essa pessoa perdeu o senso. Mas não se diz, de maneira geral – o senso, como se diz – o bom senso. “Isso é contrário ao bom senso” (Pasc.). “Isso choca o bom senso”. “Consultar o bom senso” (Bourd.). Em nenhum desses casos caberia senso. Um homem de senso tem uma qualidade pessoal, que timbra cada um em possuir, por mais que ela suponha pouca instrução, e que se refira às coisas ordinárias da vida. Um homem de bom senso está muito abaixo: não tem, para conduzir-se, nenhum recurso que lhe seja próprio, mas apenas algumas luzes comuns – um grande bom senso; ou, como se diz ainda – um grande bom senso de natureza. Filinto, no Misantropo, e Cleanto, no Tartufo, são homens de senso; Sancho Pança, no Dom Quixote, mostra-se muitas vezes um homem de bom senso. “O senso comum não significa entre nós mais que o bom senso, razão grosseira, razão começada, primeira noção das coisas ordinárias, estado intermediário entre a estupidez e o espírito” (Volt.). Desta frase e da distinção que estabelecemos poderia concluir-se que o bom senso equivale perfeitamente ao senso comum. Não é assim, no entanto. Eles se assemelham no fato de não serem, como o senso, uma faculdade ou um talento, mas, como a razão, um conjunto de princípios, de máximas, que servem de regras para a função de julgar. A diferença é fácil de sentir. O bom senso é essencialmente bom, exemplar; e ainda que seja uma razão de qualidade medíocre, aplicável somente às coisas pequenas, vulgares e práticas, não se pode dizer que seja tão comum como poderia imaginar-se: o senso comum (o modo de ver, de sentir de todo mundo, o que se sente ou se pensa comumente), ao contrário, é essencialmente comum, mas nem sempre bom. O próprio Voltaire escreveu: “Deve-se estar muitas vezes bem incerto quando se está certo, e pode-se não dar provas de bom senso quando se julga segundo o que se chama – o senso comum”. – Tanto espírito como gênio enunciam – “faculdade, ou melhor – qualidade relativa à imaginação; mas à imaginação criadora, e não à imaginação representativa como a concepção”. O homem de espírito e o homem de gênio tiram de si mesmos alguma coisa, produzem ou combinam. – Espírito, no entanto (de spiritus “sopro, vida”), termo genérico, que compreende, em sua extensa significação, todas as nossas faculdades e operações interiores, por oposição às do corpo, nada tem que marque particularmente a invenção; enquanto que gênio (do latim genius, ingenium, de generare, “engendrar, gerar”) indica precisamente uma