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que se manifestam por uma caridosa simpatia, mesmo por uma solicitude carinhosa com os que sofrem, com os que erraram ou cometeram faltas. – Clemência é a piedade que se tem com os que merecem castigo e pedem perdão: é a virtude dos soberanos, dos que podem perdoar em razão da autoridade, ou das funções que exercem. Não se diz que um indivíduo qualquer foi clemente, ou deu provas de clemência perdoando uma ofensa. A própria autoridade que anistia não se pode dizer que usa de clemência. Exerce, sim, esta virtude, não só o príncipe em cujo coração achou graça o condenado, mas também o general vencedor que poupa os inimigos quando podia sacrificá-los. Menos rigorosamente considerada, no entanto, a clemência é o sentimento de moderação, de benignidade que se tem com o culpado: é o dó que se sente por aquele que deve ser punido, e que nos leva a deixar de puni-lo esquecendo muitas vezes a justiça. – Misericórdia poderia definir-se como sendo uma virtude divina; pois verdadeiramente só Deus é que é misericordioso. É a virtude que consiste numa compaixão infinita pela desgraça, num grande dó pelo sofrimento, e que leva a alma misericordiosa, não só a perdoar, mas a socorrer o desgraçado livrando-o da desgraça. Por isso dizemos: real, imperial clemência; e – misericórdia divina. Mas, ainda, como clemência, vulgarmente misericórdia designa o profundo sentimento de piedade que nos induz a ser caritativos com os que precisam do nosso socorro. Tem-se misericórdia com os que sofrem e procura-se minorar-lhe os sofrimentos. – Piedade é “nome que melhor assenta ao sentimento que no coração humano corresponde ao que em Deus é misericórdia”. Não há piedade sem desejo, sem vontade eficaz de livrar o nosso semelhante do mal que está sofren-

do. – Compaixão é “o sentimento que nos leva a compadecer-nos dos infelizes como se os seus males fossem nossos próprios”. Pode ser um sentimento apenas, que se não manifeste por atos (que então passará a ser piedade). – Caridade é “o amor do semelhante, dir-se-ia mesmo – o amor com que se trata a todos os viventes”. É um sentimento ativo, e que se funda, por assim dizer, na compaixão. – Dó é a “dor moral que nos inspira o que é frágil, o que sofre, o que é infeliz”. – Pena, aqui, é “o sofrimento que se sente vendo alguém sofrer”. Só se distingue de dó em sugerir este um sentimento muito delicado de carinho, mais do que de simples compaixão. De uma criança que se magoou caindo tem-se dó; de um celerado que chora ao caminhar para o cadafalso pode-se ter pena. – Entre miseração e comiseração parece haver uma diferença análoga à que se nota entre compaixão e piedade, ou mesmo entre piedade e caridade. – Miseração é “a profunda dor moral da criatura que se compunge por todo infortúnio”. – Comiseração será um sentimento semelhante por uma desgraça atual, que se dá diante de nós, que nos comove no momento mesmo em que está sendo padecida. Uma grande tragédia de infortúnio, mesmo passada há longos séculos, pode produzir numa alma del