(TXT sem título)
https://silviolobo.com.br/dominiopublico/txt/parte_690193e58c6b41.75067429_146.txt

ga a tranca, tranca-se. Ferrolho é – diz Aul. – “tranqueta de ferro

(ou qualquer peça de ferro que se empregue em fechar) que, correndo horizontalmente pelos anéis, por que está abraçada, vai embeber-se na ombreira ou noutra peça, impedindo assim que se abra a porta ou janela em que está pregada”. Tranca é uma barra semelhante ao ferrolho, podendo ser, porém, de madeira. Figuradamente, no entanto, aferrolhar e trancar dizem “prender com segurança”. Fecha-se uma porta, uma gaveta, um livro, uma carta. Fecha-se a boca, deixando de falar. Também se fecha a alma, não dizendo o que se sente, ou não se expandindo. Aferrolha-se ou tranca-se igualmente uma porta, um portão, um cofre, fechando-
-os fortemente. Também se diz – “aferrolhar a fortuna”, significando que se a retém com usura ou somiticaria.

177
AFETO (afeição), paixão, amor, inclinação, amizade, ternura, apego, dedicação. – Afeto e afeição – diz Bruns. – diferençam-se apenas em ser a afeição extensiva a pessoas e a coisas, e o afeto só a pessoas. Afeição é a tendência, propensão, ou inclinação comedida que se tem para alguém ou para alguma coisa. É por afeto ou por afeição que se sente prazer em encontrar a pessoa a quem se estima, e que se procura a ocasião de a ver, de gozar da sua companhia, de lhe ser útil. A afeição que temos às coisas nos induz a ter cuidados com elas... – Paixão é o desejo veemente de obter e possuir a pessoa ou a coisa que desperta em nós esse sentimento. No afeto há moderação; na paixão há arrebatamento. Uma diferença essencial entre a afeição e a paixão é que a afeição se sente por aquilo que se possui, e a paixão sente-se geralmente por aquilo que se deseja possuir... Muitas vezes a paixão desaparece com o logro da coisa desejada; não assim o afeto ou a afeição, pois esta é constante. – O amor é um sentimento que se pode considerar intermé-

dio entre o afeto e a paixão. Se no amor não há os arrebatos da paixão, há nele algo mais da tibieza do afeto. Adolphe Garnier, no seu Traité des facultés de l’âme, diz do amor: “O caráter distintivo do amor é o de preocupar exclusivamente o nosso pensamento com a existência de uma pessoa do outro sexo, a qual nos causa um como deslumbramento contínuo pelas qualidades e perfeições que a nossa imaginação lhe atribui. Tudo nela tem encanto à nossa vista. Deliciamo-
-nos em ouvir falar dela, e ambicionamos encontrar-nos sempre e exclusivamente na sua presença. E assim como é ela que unicamente nos interessa, quiséramos que só nós fôssemos o único que lhe interessasse. Só o pensar que a ternura da pessoa amada pode ou poderia repartir-se com outrem faz-nos estremecer. O amor, não obstante, sobrevive à infidelidade: sofre-se e ama-se; está-se humilhado e adora-se; a amargura sustém-nos. O amor recusa crer nos defeitos que vê na pessoa amada; e é tal o seu fundo de benevolência que estende por sobre os vícios o véu das perfeições. Não são os defeitos da alma apenas que recusamos ver no objeto que nos apraz: são também os do corpo;