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propriamente dessocorrer, pois que só se dessocorre aquele que está em perigo ou em situação difícil; e só se desarrima a quem precisa de nós; como só se desampara aquele a quem devíamos valer, e só se abandona a quem, na perdição ou na desgraça, tinha direito a ser por nós socorrido.

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ABANDONO, desafetação, naturalidade, negligência, simpleza, descuido, ingenuidade, singeleza, lhaneza, desalinho, indolência, desídia, incúria, inércia, inação, desleixo, desmazelo, languidez, desapercebimento, abstração, distração, acídia, preguiça, ócio, segnícia, moleza. – Abandono é um galicismo (neste grupo) que pode perfeitamente ser incorporado na língua, apesar de certos caprichos fúteis de um mal-
-entendido purismo. É estranha a aplicação do termo feita por Bruns. depois de o haver definido como sinônimo de naturalidade. – “A amizade – diz ele – exige a naturalidade; mas o amor, a paixão veemente só é real quando há abandono”. Aqui há seguramente lapso: o abandono dessa frase não é o que o autor definiu como sendo o abandon francês. O abandono dessa frase é sinônimo de renunciamento, abdicação, abnegação, etc. Mas aqui, neste grupo, abandono, conquanto não seja o aplicado, e o definido por Bruns., é: “negligência amável no falar, no trajo, nas maneiras...” “Aquela candura da jovem princesa ressalta de todo o abandono em que se deixa ver lá no parque”. – Naturalidade é “maneira de se mostrar, de dizer, de se vestir sem artifícios que deem na vista”. “Falamos à rapariga, e ela respondeu com uma graça e naturalidade de criança”. – Desafetação já se não aplicaria com a mesma propriedade a uma criança; pois, desafetação já “sugere ideia de esforço ou de propósito no

sentido de parecer desafetado ou natural”. Desafetação pode simular-se; naturalidade, não. “Este tipo vem aqui fingir desafetações de Tartufo...” – Negligência2 diz também maneira descuidosa, postura desafetada, trajo sem capricho, pouca atenção com que alguém cumpre sua tarefa ou desempenha um dever. Incúria é igualmente (conforme está indicando a própria etimologia) descuido, mas “descuido culposo de quem deixa de parecer como deve, ou de cumprir um dever do seu ofício”. Negligência sempre é menos do que incúria, conquanto diga Roq. o contrário. “Por negligência foi censurada a menina que não deu conta das lições, ou dos temas a tempo: por incúria teve castigo”. “Pilhou-me a visita, ou surpreendeu-
-me nesta negligência em que se está em casa”. “Ninguém há de ter o direito de acusar-me de incúria na minha profissão”. – Desalinho é “maneira ainda mais descuidosa que a negligência: é quase incorreção de costumes, ou de frase, ou de trajar”. “Passam a ser censuráveis aqueles modos: aquilo já é desalinho, e quase inconveniência que se não perdoa em gente de educação”. – Singeleza é a qualidade do que não tem “refolhos e malícias”, acidentes de ânimo, e antes um humor sempre igual. “A singeleza daquele viver é mais edificante do que todas as opulências dos grandes”. – Simpleza sugere ideia de in