(sem título) https://silviolobo.com.br/dominiopublico/txt/parte_690193e58c6b41.75067429_147.txt e não só os negamos, senão que os tomamos por perfeições, e acabamos por amá-los. O austero Descartes simpatizava com os olhos vesgos: procurando a origem de tal gosto, recordou-se que esse defeito existia numa menina a quem amara desde a infância. à certo que o amor aumenta com os méritos do objeto amado: não vem, no entanto, de tais méritos. De que provém? Nasce, por assim dizer, sem causa; e à s vezes cessa sem elaâ. Antes de Garnier já Diderot definira admiravelmente o amor pela boca de Gardeil, quando este se dirige à sua amante La Chaux: âIgnoro a razão de já a não amar; tudo o que sei é que principiei a amá-la sem saber por quê; e que cessei de a amar sem saber a causaâ. Num sentido mais geral, o amor é o sentimento pelo qual se ama ou se quer bem a alguma pessoa: amor paternal; amor filial; amor ao próximo; amor à ciência, etc. â Inclinação, no sentido lato da palavra, é a disposição e tendência natural do espÃrito para alguma coisa. Há pessoas que têm inclinação para o bem, como as há que têm inclinação para o mal. Se a razão não pode dominar, geralmente, a paixão, nem o amor, pode facilmente triunfar da inclinação, pois aquele que se sente levado por ela para o jogo, por exemplo, ou para qualquer vÃcio, foge desse mal sem grande esforço. Vemos assim que esta palavra é menos expressiva que qualquer das três precedentes. Se a inclinação, porém, não for combatida, degenerará facilmente em paixão, ou em amor. Num sentido mais restrito, a inclinação é a disposição e tendência natural do espÃrito para amar alguém em razão do que nessa pessoa nos agrada; esta disposição, fortalecendo-se, pode tornar-se amor, ou amizade; mas em si, propriamente, não é mais do que o embrião desses sentimentos. â A amizade â diz d. José de Lacerda â é âo apego particular de uma a outra pessoa, ou que duas pessoas têm entre siâ. O abuso que se faz desta palavra não exclui que a amizade exista: se ela é vã na boca da quase totalidade dos humanos; se, no sentido que geralmente se lhe atribui, só quer dizer que as relações do trato não são desagradáveis entre aqueles que se dizem amigos â a amizade verdadeira tem, não obstante, caracteres especiais pelos quais se pode determinar; tais são: a necessidade de expansão e de confiança recÃprocas, o apreço do caráter, da Ãndole e do espÃrito do amigo, e o desejo de ser-lhe agradável e útil até a preço do próprio sacrifÃcio. Não se pode dizer que há amizade sem que o tempo e as vicissitudes da vida a tenham cimentado e posto à prova. â A ternura não é sentimento: é a manifestação de um sentimento, seja amor, seja amizade. A ternura paternal, por exemplo, não é um sentimento distinto do amor paternal: é a sua manifestação, é esse próprio amor, que se revela em tudo o que ao filho diz respeito. â O apego é um sentimento que pode ter maior ou menor intensidade, mas ao qual o coração fica alheio. O hábito, a reflexão, a recordação originam o apego; também o origina a inclinação quando é fomentada. Tem-se apego a um objeto,