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car um enigma que se propõe a alguém para o decifrar. – O dom sobrenatural de conhecer as coisas futuras chama-se profecia, e assim mesmo o anúncio que destas coisas faz o profeta. – As predições que faziam os vates chamavam-se vaticínios, porque eram acompanhadas de certo canto poético, e daquele estro ou furor que estimula o poeta quando estende as vistas sobre o futuro; e assim se podem chamar ainda hoje aquelas conjeturas que os políticos for-

mam sobre a sorte futura das nações. – Os astrólogos faziam inumeráveis prognósticos acerca de acontecimentos futuros, fundados na suposta influência dos astros; os astrônomos, guiados por mais seguras regras, prognosticam os eclipses, etc.; os prognósticos dos políticos e estadistas, fundados nas analogias e probabilidades que lhes ministra a história, raramente falham. O médico, tendo bem examinado o doente, e feito o diagnóstico, forma mui facilmente o seu prognóstico acerca da crise e do termo da doença. – Todas estas predições provêm do homem: não assim o presságio, o qual se não pode chamar uma predição, e somente é um sinal que indica ou anuncia coisa futura, ou que os homens têm como tal. Deste gênero são os sinais de que fala Virgílio no livro I das Geórgicas, e que, segundo o poeta, pressagiaram a morte de Cesar; os eclipses, que ainda o p. Vieira tinha a simplicidade ou mania de apontar como causas de grandes desgraças e calamidades; e enfim, o que sucedeu em Évora no tempo de El-Rei
d. João I e que o nosso Camões cita como um presságio daquele feliz reinado dizendo:
Ser isto ordenação dos ceus divina Por sinais muito claros se mostrou
Quando em Evora a voz de uma menina Ante tempo falando o nomeou.
(Lus., IV, 3).
– O agoiro é uma conjetura fútil, precipitada, e supersticiosa; o presságio é uma conjetura legítima e razoável, e às vezes nascida de um pressentimento instintivo que não engana, como disse Camões:
Que o coração presago nunca mente.
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ADIVINHO, bruxo, feiticeiro, mandingueiro, mágico, astrólogo, quiromante, necromante, haríolo, profeta, vate. – “O adivinho (do latim ‘divinus, divino’) é “– diz Bourguig. –” propriamente falando, aquele

que se julga dotado de um poder divino para descobrir e conhecer o que está oculto aos outros homens, quer se lhe atribua a sapiência a um dom da Divindade, quer se lha atribua ao estudo das ciências ocultas, ou mesmo à sua sagacidade natural”. A faculdade de conhecer que possui o adivinho estende-se sobre todas as coisas, e compreende o passado, o presente e o futuro. Entre os pagãos, consideravam-se os adivinhos como homens inspirados do Céu; entre os judeus e os cristãos, eram tidos, ao contrário, como simples feiticeiros ou mágicos, e reservava-se para os profetas exclusivamente a inspiração divina. – O profeta (do grego pró “antes”, e phemi “digo”) era, pois, um homem que se julgava inspirado de Deus, e a quem se atribuía o dom de predizer o futuro. Esta segunda acepção conserva-se no sentido figurado para designar aquele que anuncia, com m