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avra auxílio, que é latina (auxilium), era ignorada ou não usada até princípios do reinado de D. Manoel; a que se empregava era a portuguesa ajuda, como ainda se vê em Camões, que disse sentenciosamente:
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
(Lus. IX, 80).
  Depois que os poetas e escritores cultos foram alatinando a língua, foi aquela (auxílio) admitida com certo ar de nobreza, e esta (ajuda) passou para o domínio do vulgo; e o mesmo aconteceu com o verbo ajudar relativamente a auxiliar, como se vê dos seguintes provérbios em que no uso ordinário se não pode substituir um pelo outro:
Deus ajuda aos que trabalham. A quem madruga Deus ajuda.
Mais vale quem Deus ajuda
Do que quem muito madruga.

  Dá-se ajuda (ou ajuda-se) a uma pessoa que está embaraçada com trabalho que não pode fazer, ou para que o faça mais prontamente; dá-se auxílio (ou auxilia-se) ao que já tem meios, forças etc., e precisa de ter mais; dá-se socorro (ou socorre-se) ao que não tem o suficiente, e amparo (ou ampara-se) ao que nada tem”... – Amparar supõe o desvalimento completo da pessoa que se ampara. Só se amparam aos desvalidos, abandonados, espúrios, os que precisam de amparo, isto é, de que os sustentem, guardem, protejam para que não caiam, não sucumbam, não pereçam. – Proteger envolve ideia da superioridade de quem guarda ou ajuda, acolhe e abriga. O protegido não é sujeito que precise de socorro ou de amparo, mas antes de auxílio; e o protetor dá-lhe um auxílio poderoso para que ele se revigore, ou para que multiplique as próprias forças e se ponha ainda mais no caso de alcançar o que almeja. –

Quem nos defende é como quem se pusesse entre nós e o nosso inimigo e dos golpes deste nos guardasse. Mais extensamente, defender “é ficar ao lado de alguém para impedir que outrem se aproxime hostilmente, ou mesmo para evitar ataques previstos ou repelir agressões”. – Salvar “é pôr alguém livre ou a salvo de algum perigo, embaraço, desastre etc., quer acudindo-lhe e dando-lhe socorro oportuno e eficaz, quer auxiliando-
-lhe os esforços, quer protegendo-o, quer ainda amparando-o vigorosamente ou defendendo-o”. – Valer aqui é muito próximo de socor-
rer, amparar, salvar, acudir... “Vendo-se já no último perigo recorreu a Deus que lhe valesse” (P. Man. Bern.) – isto é – que lhe acudisse... “Valha-nos o céu nesta amargura”, “Quem me valerá nesta contingência?”

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ACUSAR, denunciar, delatar, malsinar; acusador, denunciante, delator, malsim. – Segundo Roq., “denunciar é manifestar aos juízes um delito oculto, sem apresentar as provas, deixando este encargo às partes interessadas, para que façam o que entenderem, já para assegurar-se da verdade da denúncia, já para evitar ou remediar o mal que se denuncia. – Delatar acrescenta à ideia de denunciar a de malevolência, e talvez a de algum vil interesse. O denunciante pode ser levado somente do zelo do bem público; o delator obra por maldade, ou por interesse, nunca pelo bem público: procede com disfarce e ocultando-se, e é designado