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. Chamam-se equívocas as palavras que se podem entender em dois ou mais sentidos, ou porque elas mesmas têm várias significações distintas, ou porque se confundem com outras da língua que se pronunciam e escrevem do mesmo modo, posto que tenham um significado mui diverso. O mau gosto dos nossos seiscentistas introduziu o uso dos equívocos como um ornato oratório, jogando de vocábulos para divertir o auditório ou os leitores, ou para mostrar agudeza de engenho. Vieira, tão bom orador como era, pagou largo tributo a este depravado uso; e apesar de o ter como um defeito, não se emendava de cair nele, como ele mesmo confessa num sermão da Ressurreição (VI, 470), dizendo: “Quem tirou o véu ao amor, esse lhe descobriu a cara, porque o mostrou desvelado. Não me estranheis o equívoco, que em manhã tão alegre e tão festiva até os Evangelistas o usaram”. “Este equívoco do padre Vieira precisa explicação. Sabem todos que a partícula des é um prefixo que corresponde ao latino dis, privativo ou disjuntivo, e se antepõe a muitos vocábulos para exprimir “separação, ação feita em contrário ou em sentido oposto a outra; v. g. desfazer, “desmanchar o que está feito”; desprezar “não prezar” etc. Mas o que nem todos sabem é que esta mesma partícula em alguns poucos vocábulos tem um valor mui diferente, pois indica “prolongação de ato, intensidade na ação, ou maior

perfeição”; v. g. descantar, e descante, que não significam “deixar de cantar” – o que seria “ficar calado” – mas sim “cantar muito e em harmonia ou concerto de instrumentos”, e também o mesmo concerto. A esta espécie pertence o verbo desvelar, que é composto de des e velar, e não significa “deixar de velar” – o que seria “dormir”, e no figurado “não cuidar” – mas sim “velar muito, ter muito cuidado, andar muito, solícito”. Ora, é neste sentido que o padre Vieira tinha usado este verbo e o seu substantivo desvelo; mas de repente, emprega a palavra desvelado, não com a significação do verbo desvelar-se, mas com a de “privado de véu”, fazendo a partícula des privativa, referindo-se ao verbo velar (velare) que significa “cobrir com véu”, o qual, precedido da partícula des, desvelar, significaria “privar de véu, descobrir”, como em francês o verbo dévoiler; desvelado, pelo contexto da sentença, significaria “sem véu”, porque véu é contração de velo (de velum latino) – o que forma equívoco com a significação geralmente aceita de desvelado. A isto chamam com razão os franceses jouer sur les mots; e nós, com o mesmo Vieira, lhe chamamos jogar de vocábulos. A ambiguidade é parto de limitado talento, ou dos que se querem esconder na obscuridade, como sucede com os charlatães e impostores. A anfibologia provém da ignorância das regras gramaticais ou da intenção dobre de quem fala. O equívoco é “indigno de um homem franco e honrado, porque delata engano, e deve ser evitado pelo literato, pois este nunca deve jogar de vocábulos senão em obras jocosas”. – Imprecisa será a linguagem que não for “clara, a forma que nã